ASCENSOR
 uma nova revista sobre cultura
 com encarte comissariado 
 por PAULO MENDES

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ASCENSOR,
o primeiro número desta nova revista trimestral sobre cultura apresenta um encarte especial comissariado por PAULO MENDES com o título EXÍLIO OU A IMPOSSIBILIDADE DA CRÍTICA onde são apresentados trabalhos de FERNANDO JOSÉ PEREIRA, ANDRÉ CEPEDA, MANUEL SANTOS MAIA, PEDRO BANDEIRA e JOÃO TABARRA.


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EXÍLIO OU A IMPOSSIBILIDADE DA CRÍTICA
> imagens dos trabalhos apresentados no encarte

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> Fernando José Pereira

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> André Cepeda

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 > Manuel Santos Maia

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 > Pedro Bandeira

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> João Tabarra

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EXÍLIO ou A IMPOSSIBILIDADE DA CRÍTICA

Paulo Mendes, 2011


Os trabalhos artísticos são diagnósticos da nossa contemporaneidade. Os artistas colocam questões mas não lhes cabe dar respostas. Por vezes podemos fazer as perguntas de forma a provocar uma determinada resposta, mantendo livres os canais de circulação da discussão. A criação artística está historicamente ligada ao desejo de mudança e à alteração de paradigmas estéticos e sociais. Uma evolução contínua espelhada pelas vanguardas artísticas do modernismo. Falhado esse processo resta-nos a interferência em pequena escala, a experiência colectiva e de participação. Da utopia universal para o trabalho local.

Transitamos da poética politicamente ingénua das vanguardas para uma actuação pragmática sobre a realidade – de trabalho em rede entre vários criadores e comunidades, uma realidade transdisciplinar e de contágio permanente. A arte é um modo de conhecimento e de postura sobre a realidade, sendo política por inerência. Porém uma arte política não se pode deixar aprisionar nos seus próprios modos de fazer, deve deixar margem para outras leituras da realidade e não estabelecer hierarquias de valor qualitativo.

O poder metafórico das obras foi reduzido à compra da sua superfície enquanto imagem plana sem corpo crítico, reprodutível e glamorosa, num jogo que geralmente escapa aos criadores e que demonstra a grande eficácia dos actuais modelos comunicacionais e económicos.
Esta é a sociedade dos consensos fabricados, palco idealista sem distância onde os factos se desenrolam abruptamente, incontroláveis na sua rapidez imagética, transmissões electrónicas, registos digitais a inundar écrans de LCDs, o pixel como detonador da revolução, jpegs deteriorados, testemunhos de um sistema político decadente.
A vanguarda modernista registada em revolucionárias fotografias impressas em brometo de prata, agora reciclada num caleidoscópico mainstream de imagens digitais reduzidas a miniaturas do salon cibernético.
Exílio interior, (in)comunicação partilhada do outro lado da rede social, relação mediada por engenhos electrónicos, prótese afectiva para uma população máquina cujo destino próximo é alimentar a revolução tranquila de um capitalismo sem fricções, pós-industrial sem hardware onde triunfa o software.

A crise económica apenas reforça a evidência da instabilidade social e a precariedade da tolerância social na Europa democrática. Qual o nível de tolerância para com as identidades “exteriores”?
Como pode esta velha Europa encontrar a unidade no seu interior estilhaçado por identidades múltiplas? E como vai ela resolver a integração das outras identidades que lhe são estranhas?
O aparente sucesso económico da Europa contraria as fragilidades do seu posicionamento político perante os grandes conflitos internacionais reduzindo o seu campo de influência no xadrez da geopolítica internacional.
Entre a nostalgia da memória de um passado grandioso e das ruínas das convulsões sociais, entre as velhas cicatrizes e a fractura iminente, uma nova Europa está em construção.

Os novos movimentos de intervenção social tentam contrariar a passividade, a anestesia social dos espectadores europeus, que unicamente servem para perpetuar a desigualdade social não permitindo uma superação das diferenças nacionais.
Numa prática dinâmica os artistas produzem uma constante releitura do caos desta cultura global, anulando distinções entre criação e cópia, ready-made e trabalho original. As noções de criação e originalidade esbatem-se nesta contínua “samplagem” da paisagem cultural. Manipulando formas e formatos pré-estabelecidos, os artistas contemporâneos servem-se delas para descodificar modelos e produzir outras correntes de realidade, ou seja, narrativas alternativas.

A impressão de viver numa mentira ainda é uma verdade.


[Texto original publicado no encarte da revista Ascensor]


(...)


06-01-2012

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