THE POSTCOLONIAL SINGER
 uma performance musical 
 de Paulo Mendes

PM_POST_COLONIAL_SINGER___PM_2_net400


THE POSTCOLONIAL SINGER

uma performance musical de Paulo Mendes apresentada na Aula Magna da FBAUP.


A urgência do presente oblitera a memória. Aliviem-se as consciências colonizadoras, chegou a hora de expurgar memórias passadas. O detergente histórico vai purificar uma descolonização historicamente desastrosa e fora de tempo através de investimentos e parcerias estratégicas. De colonizador, a economicamente colonizado, entre reeditados álbuns de postais idílicos do Ultramar, na Lisboa europeia e timidamente cosmopolita do século XXI, capital do Império, as pretas, passeiam-se com malas Louis Vuitton e sentam-se á mesa de conselhos de administração ou de velhos palacetes em faustosos jantares diplomáticos, enquanto a constrangida nomenclatura do poder e os seus ministros da velha República negoceiam mais um empréstimo que permita a sobrevivência do antigo colonizador. A metrópole bem comportada, ainda desnorteada na encruzilhada histórica dos antigos fantasma coloniais e em pânico económico numa Europa á deriva, encaixota as memórias e agradece a expansão económica - Kanimambo! Assim cantava João Maria Tudela no lado B de um single editado em 1959, intitulado Holiday in Lorenzo Marques.
A gestão do mundo português, da economia e da realidade, como nas velhas fotografias, segue dentro de momentos a preto e branco - realpolitik dixit.


POST_COLONIAL_S_F172___PMnet400



“Só temos o passado à nossa disposição. É com ele que imaginamos o futuro.”
Eduardo Lourenço, 1997

Esta performance integra a série de trabalhos S de Saudade que desenvolvo desde 2007 tendo sido já realizadas várias exposições e performances em espaços mais convencionais como Museus e também em galerias e projectos independentes.
No seu conjunto foram produzidos ao longo dos últimos anos trabalhos em pintura, desenho, fotografia e vídeo. Nas performances a memória do Estado Novo tem sido invocada através da personagem Senhor S.

“O que é a verdade?” questionava Salazar em 1966 no seu discurso em Braga nas comemorações do 40º aniversário do 28 de Maio.
O seu rosto já envelhecido desafiava a assistência no seu habitual tom professoral. Restavam os aplausos concordantes de uma elite instalada e fora de tempo que enunciava o início da agonia do Salazarismo.
Este projecto foge a um realismo mimético para criar uma distância crítica em relação á época. É uma confrontação crítica e subjectiva onde não existe uma preocupação pelo passado em si mesmo mas uma aproximação crítica.
Não é a pessoa do ditador que é questionada mas o simbolismo em si concentrado - figura do absurdo - como representante de um passado colectivo. Este trabalho relaciona-se com as formas, os meios e os métodos, as imagens e as suas histórias e concepções que se transformaram num “património” comum.


“Politicamente só existe o que o público sabe que existe.
É muito difícil ver o mundo da janela do nosso quarto.”
Salazar, discurso na tomada de posse do director do S.P.N. António Ferro em 1933

“A invisibilidade constitui o próprio estado de Salazar. Ele é invisível e quer-se como tal. Só raramente se mostra em público e ainda menos em manifestações de massas. A sua pessoa física, a sua presença corporal não se expõem aos olhares (…). Esta forma pouco habitual de presença de um Ditador não escapou a António Ferro: “E este nome, Oliveira Salazar, (…) começou a diminuir-se, a encurtar-se, até se engrandecer na sua redução à expressão mais simples, até ficar sintetizado nesta palavra sonora Salazar. Esse nome, com essas letras, quase deixou de pertencer a um homem para significar o estado de espírito dum país, na sua ânsia de regeneração, na sua aspiração legítima duma política sem política, duma política de verdade.”  
José Gil, 1995

O projecto S de Saudade apresenta um conjunto de trabalhos onde a fotografia, a pintura, o vídeo ou a performance se complementam em imagens que questionam o papel das artes plásticas na representação e ao serviço do poder político.
Ultrapassadas pelo avanço da história as representações do Estado Novo estão agora armazenadas em esquecidos acervos de museu ou em arquivos esquecidos de televisão, como adereços ou fragmentos de uma peça fora de cena.
Numa sociedade de brandos costumes, este lento apagar da memória corresponde a uma amnésia colectiva.


P.M. 2007/13
[excertos de um texto mais amplo que foi sendo escrito, actualizado e publicado ao longo do desenvolvimento desta série de trabalhos.]

+ info > site SINTOMAS > http://www.i2ads.org/sintoma/


POST_COLONIAL_SINGER___PM_1_net400


06-05-2013

Topo