A crise dos 
 prestidigitadores políticos?

A crise dos prestidigitadores políticos?

As eleições autárquicas de ontem revelaram alguns interessantes factos e sintomas. O eterno esquecimento dos números da abstenção, as vitórias de candidaturas independentes ou semi-independentes, o afastamento de alguns políticos com um discurso mais populista ou oportunista.

A nível nacional o PSD sofreu uma pesada derrota, perdendo sobretudo nos grandes centros urbanos um grande número de votos. Esta penalização indirecta do governo foi imediatamente desvalorizada por Passos Coelho, Presidente do PSD, e a reprimenda será olimpicamente ignorada por Passos Coelho, Primeiro-ministro.
Depois do clima de optimismo económico que tentou insuflar no final da campanha eleitoral, a realidade dos números vai certamente voltar em força no próximo Orçamento do Estado.

Do ponto de vista partidário Passos viu um dos seus possíveis adversários internos ir ao tapete – Luís Filipe Menezes – mas em contrapartida vai ter se iniciar os treinos para se defender da ambição nacional de Rui Rio, que vai querer capitalizar a nível interno do PSD a importância indirecta que teve na vitória de Rui Moreira no Porto.
Quanto ao PS teve uma vitória suada, a euforia da vitória reclamada pode facilmente ser rebatida com as perdas de importantes cidades como Braga, Beja, Évora ou Loures. Para um partido na oposição em guerra aberta, ou que tentou dramatizar o seu discurso, em relação às políticas deste governo, o resultado não é afinal assim tão retumbante. No entanto para Seguro esta vitória é o passaporte para a sua candidatura a Primeiro-ministro nas próximas legislativas, sempre olhando para a sombra de António Costa que teve a maior e mais justa, vitória da noite.
Paulo Portas pode festejar em surdina, a subida eleitoral do CDS e a conquista de câmaras ao seu parceiro de coligação. Até indirectamente Portas consegue, quase sempre, criar embaraços a esta frágil coligação que nos governa.
Ao Bloco de Esquerda aconteceu o que já se esperava, mais uma prova da sua erosão política, consequência de decisões políticas erradas nos últimos anos e de uma direcção nacional sem a capacidade de mobilização para provocar a discussão de proposta alternativas sérias e pertinentes.
O PCP foi um dos vencedores da noite ao recuperar importantes câmaras ao PS no Sul – Beja e Évora e também Loures. Esse reforço eleitoral poderá ter importantes consequências na mobilização e contestação às políticas sociais deste governo. O fortalecimento do PCP é mais uma demonstração da precaridade laboral e da degradação do nível de vida a que a população portuguesa está sujeita e da desconfiança que as classes mais pobres deste país olham para um Partido Socialista demasiado comprometido e também responsável pela situação actual.

No Porto aconteceu o mais importante fenómeno do ponto de vista do sistema político, a eleição de um candidato independente para a presidência da segunda cidade do país. Sendo de destacar as outras 10 câmaras que vão ser presididas por candidatos independentes, embora muitos deles dissidentes de partidos políticos. Estes resultados agora obtidos podem ser um pronuncio de outras candidatura num futuro breve, podendo resultar dai uma quase obrigatória resposta de regeneração do sistema partidário tradicional, num pais habitualmente, maldizente, demasiado dependente do Estado e com ausência de consciência cívica no respeita ao poder associativo e de discussão pública de ideias. A abstenção continua demasiado alta, demonstra o alheamento, o desespero e o descrédito da classe política junto de um número muito expressivo da população portuguesa, que viu ao longo de meses todo o degradante espectáculos relativo ás candidaturas reais e virtuais decididas em tribunal.

No Porto, e voltando á questão das candidaturas independentes, a situação é um pouco diferente. A candidatura apresentava resquícios da anterior presidência de Rui Rio, contava com o seu apoio implícito e com o apoio declarado do CDS, que na noite das eleições se apressou a reivindicar, através de um dirigente nacional, a vitória no Porto. Estes compromissos partidários eram a pedra no sapato de uma candidatura, que juntou um ecléctico grupo de personalidades relevantes da cidade. Foi essa abrangência, que vai de uma tradicional independência regional, positivamente bairrista mas não tacanha, embora por vezes demasiado oligárquica, até ao desejo de um Porto mais contemporâneo e cosmopolita, que deu a vitória a Rui Moreira. A divisão de vereadores com a sensata candidatura de Manuel Pizarro poderá criar um estimulante equilíbrio de forças para governar o Porto nos próximos anos.
Sendo esta uma candidatura situada á direita, congregou á sua volta uma parte significativa do sector cultural da cidade, ao integrar como quarto elemento da sua candidatura Paulo Cunha e Silva, que agora tem sobre si a responsabilidade e as expectativas de um sector, que tanta polémica e desvalorizado foi na anterior presidência. O sector da cultura - tanto economicamente como socialmente - será determinante para a afirmação de um Porto diferente. Em que a evasão da massa crítica da cidade possa ser travada, transformando esta cidade numa plataforma de discussão do pensamento contemporâneo com os criadores nacionais e numa dinâmica internacional, aproveitando os actuais fluxos de circulação de públicos e agentes culturais.

Menezes foi um perdedor aos 91minutos deste jogo eleitoral, a vitória anunciada acabou numa amarga derrota.
Uma questão fica em aberto para confirmar em futuras eleições – algumas candidaturas de formato mais populista foram desta vez derrotadas, caso paradigmático o de Alberto João Jardim, sendo a excepção o testa-de-ferro de Isaltino Morais em Oeiras, será isso reflexo de uma consciência politica mais apurada por parte da população ou apenas um resultado momentâneo devido ao desespero social?
Será este o início mais sistemático da reunião de grupos de cidadãos que reivindicam outros modos de actuação, agora que muitos dinossauros autárquicos foram afastados, e propõem ideias mais realistas para mudarem o seu quotidiano?

Será esta a morte anunciada de certo tipo de discursos e de formatos de campanha produzidos pelos populares políticos prestidigitadores de ocasião?....


29-09-2013

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